Compaixão
“...retirou-se dali e foi para um lugar deserto.”(Evangelho de Mateus,14)
Freqüentemente em nossa vida nos deparamos exatamente com uma situação similar a esta. Esta curta sentença se refere a uma atitude de Jesus frente a um episódio que lhe causou uma profunda tristeza. Seu primo, João Batista, havia sido assassinato a mando de um governante a pedido de uma mulher desvairada.
O sofrimento parece nos impelir ao isolamento e ao questionamento interior. Porém, associado ao sofrimento esta posta a loucura e a falta de lógica para algumas atividades humanas. Por que matamos pessoas boas? Por que condenamos inocentes? Por que destruímos uns aos outros com armas ou com palavras? Algumas atividades humanas simplesmente não fazem sentido. Por que um jovem entraria em uma escola disposto a matar crianças que não tinham ligação alguma com ele?
A nação inteira se comoveu, mês passado, com a morte de 12 crianças e o sofrimento de 11 crianças que permanecem hospitalizadas. As crianças são vítimas do ataque à escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, atirou contra alunos em salas de aula lotadas, foi atingido por um policial e se suicidou.
Todos experimentamos um sentimento que nos une e nos caracteriza como seres humanos: compaixão.
Se continuarmos a leitura do texto de Evangelho de Mateus, encontramos logo em seguida essa observação: “E, Jesus, saindo, viu uma grande multidão, e possuído de íntima compaixão para com ela, curou os seus enfermos”.
A síntese que surge desta reflexão inicial é, que embora nossa tendência seja a de priorizarmos nossas próprias vontades egoístas, que na maioria das vezes nos levam a crer que o nosso sofrimento é maior que o de todos os outros, o espanto com que a compaixão nos arrebata, nos leva a uma atitude altruísta, uma ação que nos leva a priorizar o outro que sofre.
Por isso a compaixão é uma força arrebatadora. Ela que faz um soldado abraçar em seu colo a criança já sem vida. Ela é que nos faz dividir a nossa água, nosso feijão com arroz com pessoas que nunca vimos antes, as quais perderam tudo em uma enchente num lugarejo em nosso país ou num tsunami do outro lado do planeta. Por isso, a compaixão não é apenas mais um conceito psicológico da moda da auto-ajuda, ela é uma potência latente e real, como um instinto natural, que quando despertado ultrapassa a lógica do preconceito e do egoísmo, e por que não dizer, da nossa insistente falta de amor.
Um exemplo bem próximo de nós é quando olhamos para dentro das igrejas. Somos ávidos a julgar aquele oprimido que, como último recurso, como um sopro de esperança, trás um lenço, uma garrafa de água, uma peça de roupa, ou mesmo em outros contextos religiosos, uma vela acesa diante de uma imagem inerte. Certamente uma dezena de teses sobre religiosidade e idolatria borbulham em nossas conversas de cantina. Porém, o desespero humano não segue a lógica da racionalidade. Quem sofre, não elabora filosofias e significados. Quem julga, sim. Um salmo impresso em uma flanelinha vulgar, pregado na parede de uma sela da prisão, mantém acesa a esperança que declara: ...o Senhor é meu pastor, nada me faltará...
Neste momento, milhares de pessoas estão a espera de um milagre. Isso porque a vida nos desafia com situação sobre-humanas. Talvez a vida tenha sido generosa com você, e, isso nem faça tanto sentido, afinal, tudo está perfeito. Mas é preciso o esforço, não de diagnosticar e julgar, mas de reverter o fluxo egoísta da vida e deixar ser arrebatado pela paixão, por uma causa, por uma pessoa, pela vida em comum, ela natureza, pelos animais, seja qual for o razão, é preciso despertar do sono da racionalização.
E é justa uma distinção dos termos, pois compaixão não tem nada a ver com, pena, piedade ou dó. Embora também sejam sentimentos humanos da mesma ordem, porém, são inúteis, pois não são providos de ação.
Naquele momento de tristeza, apresentado no início deste texto, o melhor que Jesus tinha a fazer para dignificar a morte do profeta que o batizou era cumprir a missão para qual ele havia sido enviado e que não passou despercebida pelo servo de Deus e pela qual perdeu a sua vida para abrir caminho ao evangelho vivo, cuja matriz encontra na compaixão humana sua maior identificação. Estar apaixonado pela humanidade é um sentimento que leva o Pai a entregar seu Filho por ela. Não faz sentido, não tem lógica alguma, pode ser até irracional, mas acredite, Ele fez, por compaixão e amor por você.
Foi para essa desesperança humana que Jesus olhou. Mas não apenas viu. Ele as olhou com alguém que tinha uma resposta ao sofrimento. Por isso o abraço de quem ampara com compaixão transmite esperança. E o toque sincero e sem julgamento produz a fé suficiente para acreditar que é possível segui em frente. Que é possível ser curado até mesmo de uma enfermidade.
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