Crer e Pertencer
Um dos grandes paradigmas da (pós)modernidade proclama a auto-afirmação do sujeito como centro do mundo. Neste novo sujeito evidencia-se uma necessidade de experimentação religiosa profundamente singular e inovadora em relação aos padrões convencionais. Vemos no horizonte o crepúsculo das religiões coletivas e a aurora de uma modalidade de crer individualizada e relativa, ou seja, o crer sem pertencer.
Constatar este fenômeno social contemporâneo não é muito difícil, basta fazer a seguinte pergunta a dez pessoas em um ponto de ônibus próximo a uma igreja: “A qual igreja você pertence?” Estima-se que sete entre dez responderá: “...eu vou”, ou “...eu freqüento”, ou “...no momento eu estou indo em tal igreja”.
Ao que tudo indica este já não é tão somente um fenômeno decorrente do encontro de culturas e da diversidade religiosa. É sim, conseqüência de uma atitude religiosa inconclusiva, relativa, inerente as experiências e expectativas individuais, ou seja, caracteriza experimentação de uma religião a seu modo, que busca uma nova espiritualidade. Desta perspectiva, a vida cristã converte-se em uma “jornada”, ou ainda “em diálogo com o mundo”. Embora as instituições e tradições religiosas não tenham perdido totalmente seu papel social de transmissão das crenças, elas agora têm como desafio lidar com a limitação que a abertura proporcionada pela experiência atual vivida pelos indivíduos proporciona. A religião se torna, desse modo, “light”, fazendo concessões às exigências éticas e morais compatíveis com o modo de vida atual. Também se tornam apelativas, ricamente afetivas com sacralidades efêmeras e emocionais.
Resultado disso é que os contornos da religiosidade atual se manifestam de forma difusa, ou seja, que o fiel pode enunciar esta ou aquela confissão religiosa, sem, contudo, que isso implique na adesão e fidelidade a determinado grupo religioso. Isso pode ser constado principalmente no cristianismo, tanto o católico, quanto o evangélico. Com a globalização das religiões o mundo deu um salto da religiosidade, que é coletiva, para a espiritualidade, que é individual.
Com a diminuição das fronteiras entre as múltiplas confissões evangélicas devido à multiplicação desses espaços, tal encontro promoveu reajustes na convivência entre as religiões. O panorama que vemos é a bi- polaridade, no qual pessoas crêem sem pertencer ou pertencem sem crer. As primeiras se tornam fundamentalistas, aquelas que encontram críticas em tudo, e as segundas, tornam-se místicas, que de tão cheias de espiritualidade, não cabem em uma só instituição, ou seja, transcendem. É neste ponto que os pregadores encontram um ponto de tensão: entre o institucional e o carismático. Falha o catecismo ou o discipulado que deveria iniciar o crente ao significado da vida religiosa e falha a comunicação que transforma o espaço ritual, de modo exagerado, em um ponto informal de encontro religioso. O institucional e o carismático estão, quase sempre, em desarmonia.
De fato, hoje ninguém será devorado por um leão se confessar que pertence ao cristianismo, pelo menos aqui no Brasil, pois em alguns países orientais tal confissão é uma sentença de morte. Entretanto, experimentamos o que se pode chamar de “Síndrome de Nicodemos”.
Nicodemos é um personagem bíblico do Novo Testamento que crê na mensagem de Jesus, mas que, no entanto, não consegue pertencer à nova realidade que esta fé proporciona, ou seja, pertencer intimamente a Deus. Um encontro dele com Jesus é narrado no livro de João no capítulo três, onde Jesus declara: “... se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Nicodemos, conhecedor de toda a história e esperança do povo hebreu, embora reconhecendo que Jesus é “...um mestre vindo da parte de Deus...”, não consegue ver, ou decodificar o sentido e o significado da condição “nascer de novo”. O seu modo de crer é materialista, baseado em convicções puramente individuais.
Ao que tudo indica, muitos de nós padecemos da mesma síndrome. Aparentemente acreditamos no Evangelho de Jesus, mas a imagem da videira (árvore que produz uva) com seus muitos galhos está bem distante do nosso imaginário. Não somos broto, nem galho e muito menos damos frutos. Vale a pena ler tudo o que Jesus declara no mesmo livro de João capítulo quinze: “Eu sou a videira verdadeira, e meu pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta, e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira verdadeira, vos os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim, nada podeis fazer”.
Do ponto de vista de Jesus a Nicodemos, a religião não é um band-aid nas nossas agruras existenciais. Nascer de novo implica numa ação criativa por parte de Deus que faz novas todas as coisas. Nós podemos transformar muitas coisas, mas só Deus pode criar um broto novo na árvore da videira, que não é autônomo, muito pelo contrário, quanto mais comprometido estiver com o tronco, mais bem sucedido será em suas expectativas.
No entanto você pode argumentar “...eu posso tudo isso sem ter de me filiar a uma igreja”! Isso é bem verdade. Certamente, esta argumentação nos levaria de imediato as razões descritas no início deste texto. Entretanto, nada indica que há alguma vantagem em separar o “corpo” da “cabeça”, ou seja, é inaceitável a separação entre Cristo e a Igreja. Seria experimentar um cristianismo morto. Porém, concordamos com você que uma denominação pode também se tornar uma pedra de tropeço quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A Igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.
Concluindo, se você tiver curiosidade de ler o livro de João, no capítulo 19, verá que Nicodemos e seu amigo José de Arimatéia sepultaram a Jesus. Nicodemos perfumou o corpo morto de Jesus com aromas. Ele tocou naquelas feridas e o ungiu. O que se passou na mente de um homem que ouviu pessoalmente as palavras: “... o mais importante é nascer de novo” e agora tem seu corpo morto em seus braços? Ele o sepultou num jardim. Semelhantemente, a vida também teve início em um jardim. Somente no jardim é que o jardineiro pode cuidar e cultivar a sua criação. Nicodemos encontrou o sentido e significado daquele mistério: nascer de novo não é somente um modo de vida, é, antes de mais nada, uma identificação profunda com a morte, como declara Paulo em Romanos 7:4 “...vós morrestes para a lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que frutifiquemos para Deus”.
Constatar este fenômeno social contemporâneo não é muito difícil, basta fazer a seguinte pergunta a dez pessoas em um ponto de ônibus próximo a uma igreja: “A qual igreja você pertence?” Estima-se que sete entre dez responderá: “...eu vou”, ou “...eu freqüento”, ou “...no momento eu estou indo em tal igreja”.
Ao que tudo indica este já não é tão somente um fenômeno decorrente do encontro de culturas e da diversidade religiosa. É sim, conseqüência de uma atitude religiosa inconclusiva, relativa, inerente as experiências e expectativas individuais, ou seja, caracteriza experimentação de uma religião a seu modo, que busca uma nova espiritualidade. Desta perspectiva, a vida cristã converte-se em uma “jornada”, ou ainda “em diálogo com o mundo”. Embora as instituições e tradições religiosas não tenham perdido totalmente seu papel social de transmissão das crenças, elas agora têm como desafio lidar com a limitação que a abertura proporcionada pela experiência atual vivida pelos indivíduos proporciona. A religião se torna, desse modo, “light”, fazendo concessões às exigências éticas e morais compatíveis com o modo de vida atual. Também se tornam apelativas, ricamente afetivas com sacralidades efêmeras e emocionais.
Resultado disso é que os contornos da religiosidade atual se manifestam de forma difusa, ou seja, que o fiel pode enunciar esta ou aquela confissão religiosa, sem, contudo, que isso implique na adesão e fidelidade a determinado grupo religioso. Isso pode ser constado principalmente no cristianismo, tanto o católico, quanto o evangélico. Com a globalização das religiões o mundo deu um salto da religiosidade, que é coletiva, para a espiritualidade, que é individual.
Com a diminuição das fronteiras entre as múltiplas confissões evangélicas devido à multiplicação desses espaços, tal encontro promoveu reajustes na convivência entre as religiões. O panorama que vemos é a bi- polaridade, no qual pessoas crêem sem pertencer ou pertencem sem crer. As primeiras se tornam fundamentalistas, aquelas que encontram críticas em tudo, e as segundas, tornam-se místicas, que de tão cheias de espiritualidade, não cabem em uma só instituição, ou seja, transcendem. É neste ponto que os pregadores encontram um ponto de tensão: entre o institucional e o carismático. Falha o catecismo ou o discipulado que deveria iniciar o crente ao significado da vida religiosa e falha a comunicação que transforma o espaço ritual, de modo exagerado, em um ponto informal de encontro religioso. O institucional e o carismático estão, quase sempre, em desarmonia.
De fato, hoje ninguém será devorado por um leão se confessar que pertence ao cristianismo, pelo menos aqui no Brasil, pois em alguns países orientais tal confissão é uma sentença de morte. Entretanto, experimentamos o que se pode chamar de “Síndrome de Nicodemos”.
Nicodemos é um personagem bíblico do Novo Testamento que crê na mensagem de Jesus, mas que, no entanto, não consegue pertencer à nova realidade que esta fé proporciona, ou seja, pertencer intimamente a Deus. Um encontro dele com Jesus é narrado no livro de João no capítulo três, onde Jesus declara: “... se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Nicodemos, conhecedor de toda a história e esperança do povo hebreu, embora reconhecendo que Jesus é “...um mestre vindo da parte de Deus...”, não consegue ver, ou decodificar o sentido e o significado da condição “nascer de novo”. O seu modo de crer é materialista, baseado em convicções puramente individuais.
Ao que tudo indica, muitos de nós padecemos da mesma síndrome. Aparentemente acreditamos no Evangelho de Jesus, mas a imagem da videira (árvore que produz uva) com seus muitos galhos está bem distante do nosso imaginário. Não somos broto, nem galho e muito menos damos frutos. Vale a pena ler tudo o que Jesus declara no mesmo livro de João capítulo quinze: “Eu sou a videira verdadeira, e meu pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta, e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira verdadeira, vos os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim, nada podeis fazer”.
Do ponto de vista de Jesus a Nicodemos, a religião não é um band-aid nas nossas agruras existenciais. Nascer de novo implica numa ação criativa por parte de Deus que faz novas todas as coisas. Nós podemos transformar muitas coisas, mas só Deus pode criar um broto novo na árvore da videira, que não é autônomo, muito pelo contrário, quanto mais comprometido estiver com o tronco, mais bem sucedido será em suas expectativas.
No entanto você pode argumentar “...eu posso tudo isso sem ter de me filiar a uma igreja”! Isso é bem verdade. Certamente, esta argumentação nos levaria de imediato as razões descritas no início deste texto. Entretanto, nada indica que há alguma vantagem em separar o “corpo” da “cabeça”, ou seja, é inaceitável a separação entre Cristo e a Igreja. Seria experimentar um cristianismo morto. Porém, concordamos com você que uma denominação pode também se tornar uma pedra de tropeço quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A Igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.
Concluindo, se você tiver curiosidade de ler o livro de João, no capítulo 19, verá que Nicodemos e seu amigo José de Arimatéia sepultaram a Jesus. Nicodemos perfumou o corpo morto de Jesus com aromas. Ele tocou naquelas feridas e o ungiu. O que se passou na mente de um homem que ouviu pessoalmente as palavras: “... o mais importante é nascer de novo” e agora tem seu corpo morto em seus braços? Ele o sepultou num jardim. Semelhantemente, a vida também teve início em um jardim. Somente no jardim é que o jardineiro pode cuidar e cultivar a sua criação. Nicodemos encontrou o sentido e significado daquele mistério: nascer de novo não é somente um modo de vida, é, antes de mais nada, uma identificação profunda com a morte, como declara Paulo em Romanos 7:4 “...vós morrestes para a lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que frutifiquemos para Deus”.
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