O que há de errado com a felicidade?

Existe algo errado com a felicidade! Espantoso e contraditório, mas é verdade.

Melhor dizer em conjunto, que existe algo distorcido na estratégia atual de tornar as pessoas felizes. Neste sentido, uma antropologia da felicidade, isto é um esforço para compreender o que faz as pessoas se sentirem felizes, torna o objeto bem mais complexo.

Em primeiro lugar porque há uma ampla disseminação da idéia de que existe uma íntima correlação entre crescimento econômico e maior felicidade. Acreditamos, e quem dera fosse verdade, que um pouco mais de dinheiro, que não é dispensável hoje em dia, nos torne mais felizes e melhore a qualidade de nossas vidas. É verdade que a pobreza e a carência não são de modo algum desejáveis. A questão aqui é que, por essa premissa, absorvemos praticamente a totalidade de nossos estoques de vitalidade num esforço interminável em gerar renda e adquirir tranqüilidade financeira. Nesse item a sabedoria popular já deu o seu parecer: “dinheiro é bom, mas não traz felicidade”.

Em segundo lugar, e esse talvez seja o grande nó da felicidade, é que nossa relação com o consumo de bens que o dinheiro pode comprar, hoje em dia, é bem democrática, isso é, qualquer pessoa, seja ela de qual classe social pertença, pode consumir. Entenda que consumir não é a mesma coisa que gastar ou esbanjar dinheiro. Consumir é uma relação prazerosa e passageira com uma mercadoria, uma satisfação pessoal que a posse do objeto de desejo proporciona. Vá a uma loja do tipo 1,99 ou mini- preço, e experimente por si mesmo.

A conseqüência disso tudo é algo que toca diretamente nossa auto-estima. Isso porque o sonho da felicidade, quando se sustente pelos parâmetros demonstrados até aqui, nunca pode ser atingido. A felicidade tem um preço conforme a etiqueta. É por essa razão que, se não conseguimos uma felicidade duradoura, segmentamos nossa busca e pequenas fatias. Felicidade com prazo de validade. O melhor exemplo disso é a filosofia de viver um dia de cada vez, uma espécie de renascer, de adquirir um novo “eu” de tempos em tempos. Não há absolutamente nada de errado nisso e nem mesmo é novidade. O fato novo é que hoje em dia constituímos nossas vidas em episódios.  Significa afirmar que, a qualquer momento, podemos mudar a trama do palco da vida. Ou seja, as coisas deixaram de ter um caráter permanente. O casamento é um exemplo clássico. Não deu certo, parte-se para outro, ou ainda, pensando bem, antes que isso aconteça, melhor mesmo é juntar os trapinhos é pronto.

Adquirimos, portanto, uma fobia a compromissos duradouros ou permanentes. A regra é a transitoriedade e a flexibilidade. Trocamos o prazer da ligação pelo prazer da ilusão. Ligação entendida como um sentimento que somente acorre pela sedimentação do tempo dedicado a pequenos cuidados, semelhante ao cuidado que o oriental dedica a seu bonsai. Bem diferente da faísca, do pulso de felicidade que buscamos de tempos em tempos.

Aprofundando um pouquinho mais a quentão, ela se assenta exatamente na convocação que Nietzche, um o filósofo alemão bastante popular apregoa. O passado atrasa e detém o vôo dos construtores do futuro. Portanto, nas palavras dele, um Homem-Superior, auto-suficiente, deve tratar o seu passado com desprezo, incluindo seus compromissos anteriores, se desejar ser realmente livre.
Ao que tudo indica, na contra-mão da filosofia moderna, a felicidade está condicionada a um modo de existir balizado nos parâmetros do impossível! Trocando em miúdos, a felicidade é um caminho e sempre estará “além do horizonte, em algum lugar bonito pra viver em paz”, como ensina a música de Roberto Carlos. Esse sentimento de totalidade é que nos move em direção a ela. Prosperidade, neste sentido, não é conquistar a felicidade, e sim, possuir a consciência que se está no caminho, indo em sua direção. Entretanto, o pavimento que te conduz é formado pelo sólido sedimento construído de compromissos firmados ao longo da vida. Como as ranhuras de uma fotografia, é um caminho constituído de marcas sem verniz.

Note como fica agora esta curta antropologia da felicidade contrastando a uma teologia da felicidade ensinada por Jesus no Novo Testamento:



Quando Jesus viu aquelas multidões, subiu um monte e sentou-se. Os seus discípulos chegaram perto dele,  e ele começou a ensiná-los. Jesus disse:     

Felizes as pessoas que sabem que são espiritualmente pobres, pois o Reino do Céu é delas.     

Felizes as pessoas que choram, pois Deus as consolará.     

Felizes as pessoas humildes, pois receberão o que Deus tem prometido.     

Felizes as pessoas que têm fome e sede de fazer a vontade de Deus, pois ele as deixará completamente satisfeitas.     

Felizes as pessoas que têm misericórdia dos outros, pois Deus terá misericórdia delas.     

Felizes as pessoas que têm o coração puro, pois elas verão a Deus.     

Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as tratará como seus filhos.     

Felizes as pessoas que sofrem perseguições por fazerem a vontade de Deus, pois o Reino do Céu é delas.    

Felizes são vocês quando os insultam, perseguem e dizem todo tipo de calúnia contra vocês por serem meus seguidores.     

Fiquem alegres e felizes, pois uma grande recompensa está guardada no céu para vocês. Porque foi assim mesmo que perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.     

Vocês são o sal para a humanidade; mas, se o sal perde o gosto, deixa de ser sal e não serve para mais nada. É jogado fora e pisado pelas pessoas que passam.



Esta lição está no Evangelho de Marcos, capítulo 5. Um teólogo poderia destacar inúmeras verdades desta teologia da felicidade presente no sermão de Jesus. Para este artigo basta uma evidência apenas, a de que Jesus não fixou a felicidade em nenhum marco material. Todos apontam para um horizonte, uma espécie de meta que serve estímulo. A felicidade prometida nesta mensagem é uma esperança e aponta para a eternidade, o Reino do Céu.  Ao mesmo tempo, ela é resultado de um compromisso, uma aliança, um pacto entre aqueles que o reconhecem como messias e se tornam embaixadores desta boa notícia.

Portanto, o que há de errado com a felicidade, afinal? Absolutamente nada. A sociedade contemporânea é que escolheu o caminho errado. Talvez a melhor resposta esteja na metáfora do sal: a humanidade deixa de ser infeliz quando é temperada por aquela esperança e isso é uma relação mútua, uma construção coletiva, aquele toque final na arte da vida.

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